Meus pais moravam na roça, como chamávamos. Mudamos para uma cidade do interior, com cerca de 20 mil habitantes. Eu ainda era muito novo e lembro-me vagamente das coisas. A carroceria do caminhão. Um mastro para uma antena de televisão, daquelas tipo espinho de peixe, com uma sacolinha branca amarrada atrás, pois só dava para realizar a mudança de noite e era preciso sinalizar que o mastro era maior que o caminhão. Mais escassas ainda são as minhas lembranças do período em que moramos na zona rural. Cresci ouvindo histórias dos familiares que passaram grande parte da vida, ou que ainda estão, na lida com plantações e animais.

Ler Torto Arado, livro de Itamar Vieira Junior, mesmo que esse verse sobre contextos familiares, religiosos e regionais diferentes, me trouxe à tona diversos flashes na memória. Comecei a tecer comentários sobre essas lembranças com Camille. Algum momento depois, fez sentido transformar essas lembranças e relações nesse texto, um relato escrito, com intuito de manter vivas essas memórias. Quanto aos contextos familiares, religiosos e regionais é importante destacar que somos do interior do estado de Goiás, família branca e que, apesar de trabalhar para grandes latifundiários da região, tinha posse de um pequeno pedaço de terra, que era herdado, e posteriormente foi vendido para viabilizar a primeira mudança.
A primeira dessas correlações entre a leitura e as lembranças familiares das quais me recordei surgiu durante o relato do início da época chuvosa citando, logo em seguida, o dia de São José. Cresci ouvindo familiares perguntando, entre si, sobre a enchente de São José. Tempestade que, na cultura popular, acontece nos dias próximos ao dia 19 de março que, como pode-se imaginar, é o dia do santo mencionado.
Minha mãe e meu pai, assim como parte da família que deixou a vida rural, como contadores de histórias de suas vidas pregressas à mudança para a cidade, ainda que interiorana, também compartilham outra característica com algumas das vidas narradas pelo livro, dos viventes de Água Negra: são primos de primeiro grau. Quanto a meu pai, a fome sempre esteve presente (ele dizia que "espremíamos limão até acabar o caldo para comer o bagaço"). Os estudos só cobriam as primeiras séries, todos acabavam deixando a escola para auxiliar no sustento de suas famílias.
As construções em barro, ainda que utilizando métodos e feitas por motivos diferentes, sempre puderam ser vistas em casas antigas, durante visitas a parentes, ao lado das recentes obras de alvenaria. Casas velhas, ou taperas, de adobe com partes desmoronando. O madeiramento dessas casas era tirado da mata, cheio de cupins e teias de aranha. Nos relatos de meus pais, menciona-se ainda períodos mais longínquos em que ranchos eram utilizados como moradia. O telhado, feito de algum tipo de palha, sempre ruía durante grandes chuvas. As crianças precisavam ser abrigadas sob algum objeto. Para além da memória, restam os traumas e medos. Esses acompanham as pessoas mais suscetíveis ao longo dos anos e continuam sendo relembrados e contados sempre que necessário. Necessidade essa que surge em assombros aos quais a população é exposta durante os eventos extremos da crise climática.
Após deixar as terras, que já não eram mais de sua propriedade, a visita à antiga casa, chamada de tapera, tomada pelo mato, é um compromisso com as crianças pequenas e curiosas. Mas a vida correndo, a falta de novidades, a distância e o mato vão desfazendo a obrigação aos poucos. Com estrutura simples, desmoronando, tomada pelo verde do mato, rodeada por pastos e plantações, a imagem da tapera e, mais profundamente, da casa, antigo abrigo familiar, se esvaí da memória, pouco a pouco.
O Buriti, fruto tão presente nas histórias narradas por Itamar Vieira Junior, também presente pelas matas da região, sempre foi meio desprezado, pelo menos nas lembranças. A exceção eram crianças que queriam varetas da folha do Buriti para construir pipas. Algum tempo atrás, entretanto, ao ver doce de Buriti, também narrado na história, em feiras e lojas que comercializam produtos caseiros, comentários de reconhecimento foram feitos por minha mãe.
Passado mais tempo, implacável, já sem a presença viva de meu pai, continuamos a trilhar o fluxo de mudanças, agora para uma cidade, maior (mas ainda interiorana), com cerca de 400 mil habitantes. A cada nova mudança, mais as memórias se esvaem. Um dos hobbies, atuais, de minha mãe é assistir as novelas, principalmente clássicas, em um aplicativo de streaming. Não raro é possível ouvir de seus lábios saudosos a vontade de assistir, novamente, alguma novela de sua juventude. Acompanhando esses comentários, vez ou outra, surgem relatos de pessoas que se juntavam na casa de uma vizinha, dona da única televisão da região, movida a bateria como no relato da casa de Damião no livro.
As memórias são frágeis. Esquecemos muito facilmente. Um livro ter o papel, como Torto Arado fez, de descrever, de forma parcial, memórias adormecidas ao pontos de elas irem ressurgindo tem um significado especial, tal qual um museu próprio de sua história. Esse texto, por exemplo, não tem cronologia nem história, são fragmentos. A premissa é que você encontre livros que o façam despertar memórias suas relacionadas às de seus familiares, e que esse texto possa ser um ponto de partida.